Sabemos que o dinheiro surgiu para facilitar as trocas entre as pessoas. Mas, por outro lado, o dinheiro pode representar o fracasso das nossas liberdades individuais quando perdemos a vida ao tentar “ganhá-la”.

Esse é o gancho para um vídeo que questiona as nossas escolhas no sistema capitalista. O que você gostaria de fazer caso o dinheiro não existisse?

A mensagem é válida, afinal muitos de nós sequer tem a liberdade de sonhar uma vida diferente, dado o imperativo da sobrevivência num sistema muito bem articulado para explorar a nossa força de trabalho. Por outro lado, não é a existência do dinheiro a causa da exploração.
A revista Superinteressante consultou especialistas para tentar imaginar como seria o mundo caso a população deixasse de usar dinheiro. Será que todos seríamos mais felizes? Não foi essa a conclusão que a revista chegou.
Sem dinheiro, as cidades seriam esvaziadas e muita gente morreria de fome. Profissionais muito especializados, como um estilista ou um cientista, não sobreviveriam com o seu trabalho.
Sem especialistas, com a força física valendo mais que a inteligência, até os conhecimentos mais simples, como ler e escrever, passariam a ser supérfluos.
Leia: E se… o dinheiro deixasse de existir?
Enfim, a questão levantada pelo vídeo (Como você realmente gostaria de viver a sua vida?) pressupõe que os sujeitos sempre têm escolha, o que não é verdade para a imensa maioria da população mundial, que sequer pode fazer escolhas simples, como a de consumir um alimento mais saudável ou de morar em um lugar melhor.
O vídeo vale pela reflexão para que possamos rejeitar a lógica consumista, mas a questão central não é a existência do dinheiro ou simplesmente as escolhas individuais. É preciso compreender a operação do sistema de produção no qual vivemos. Do contrário, é apenas auto-ajuda.


 

Adriano Liziero
Blogueiro desde 1999 e hacker desde cedo, gosto de desmontar e descomplicar coisas. Voltei de Angola, onde vivi durante quatro anos, querendo ser piloto de avião e geógrafo. Estudei aviação e, mais tarde, ingressei na faculdade de Geografia da USP. Minha paixão por descomplicar coisas me levou também ao jornalismo. Há sete anos, trabalho fazendo games, vídeos e infográficos de geografia. Fundei o Geografia Visual para explicar o mundo de um jeito diferente e criativo.