Os mais de 40 milhões de km² e os 15 mil km, em linha reta, entre norte e sul, podem tornar a tarefa de entender a diversidade natural da América um motivo para muitas dores de cabeça, especialmente quando esse assunto entra na sala de aula, dada a grandiosidade do tema. É possível tratar a variedade de paisagens naturais do continente sem recorrer a recortes por região ou a uma abordagem para além de mapas e fotos?

Pensando sobre a difícil tarefa de dar unidade a uma parte tão vasta do planeta, mas de olho nas demandas que um projeto desse tipo exige (nossa missão de tratar a diversidade natural da América como um todo), foi possível encontrar um caminho, ou melhor, vários caminhos. Os mapas do continente logo instigam a pensar em percorrê-lo de ponta a ponta, e a Rodovia Panamericana é a via pela qual isso pode ser possível.

Apesar de não ser uma única estrada contínua, mas uma rede de vias interligadas, a rodovia é um projeto idealizado na década de 1920, para permitir a integração cada vez maior entre os países americanos. Esse percurso, entre Ushuaia (sul da Argentina) e Prudhoe Bay (norte do Alasca, EUA), possui quase 50 mil km e passa por todos os grandes domínios naturais da América, da tundra às áreas tropicais e equatoriais, também cortando desertos, pradarias e a Cordilheira dos Andes.

Como a ideia da viagem não é nova, a quantidade de registros de pessoas e grupos que já realizaram a proeza é vasta. A seguir, vão algumas dicas que podem auxiliar essa pesquisa:

Trecho da Rodovia Panamericana, indo para a cidade de Yaviza (sentido sul). Entre essa cidade panamenha e a Colômbia, há uma quase interrupção da estrada asfaltada, de quase 100km. É o chamado Tapón de Darién.

Google Street View

Embora no Brasil seja possível visualizar, no nível da rua, apenas as áreas metropolitanas mais importantes, para a América do Norte as coisas são diferentes. Uma boa parte das rodovias, incluindo a Panamericana, pode ser visualizada em praticamente toda a extensão, de Prudhoe Bay (Alasca, EUA), até a divisa entre o México e a Guatemala. É a oportunidade de, literalmente, viajar pela estrada e observar a diversidade da vegetação, do relevo, das formações geológicas e da flora em diferentes pontos da rede de estradas.

Rodovia Panamericana, na região das linhas de Nazca (Peru).

Rotas interoceânicas

Recentemente, vários projetos de ligações rodoviárias ou ferroviárias entre o Brasil e os países da costa começam a sair do papel. É possível, por exemplo, viajar de São Paulo para Lima (Peru), La Paz (Bolívia) ou Santiago (Chile) utilizando linhas de ônibus regulares, bastando ter espírito para aguentar alguns dias de viagem e olho atento para algumas paisagens de tirar o fôlego, especialmente as curvas nas estradas da Cordilheira dos Andes.

A seguir, dois links de repórteres aventureiros que toparam o desafio:

- Uma viagem de 96h entre São Paulo e o Pacífico

- De ônibus pela Rodovia Panamericana

Glaciar no Alasca (EUA), muito comuns na região ártica e sub-ártica.Os glaciares são formados a partir da compactação e descompactação da neve em várias épocas, e deslocam-se por ação da gravidade, provocando processos erosivos e criando formas com esse aspecto de chantilly.

Viajantes de moto e bicicleta

Parece muito difícil, mas alguns aventureiros, sozinhos ou em grupo, já conseguiram realizar essa façanha de percorrer o continente de sul a norte. Um dos exemplos mais emblemáticos é o de um ciclista português que, durante quase três anos, conseguiu usar sua “magrela” para registrar, em detalhes, as suas pedaladas pelo continente.

As motocicletas também foram protagonistas em outra viagem pelo continente, a Expedição Alasca. O grupo de motociclistas, que depois de muitos sonhos e planejamento detalhado (incluindo a busca por patrocinadores), saiu de Blumenau (SC) para percorrer a Rodovia, registrou em vídeos, imagens e depoimentos a passagem pelo continente.

O uso didático da paisagem

Utilizar a análise da paisagem como um das categorias-chave da geografia torna a pesquisa e a viagem, ainda que virtual, pela América um exercício instigante. É possível, além de estabelecer características e fazer comparações entre domínios naturais, perceber a expressão dessas características nos diferentes lugares da rodovia. As possibilidades são quase ilimitadas, mas o embarque para essa estrada está dado. Boa viagem para todos, e não esqueçam de compartilhar as suas experiências nessa jornada.

 

* Erico Cândido é professor de geografia e roteirista da material didático digital na Pearson Education.