A realidade que a Coreia do Norte quer esconder de você

Adriano Rangel Liziero

Adriano Rangel Liziero

Editor | Geógrafo

5 de outubro de 2016

Sob o Sol (Under the Sun) era para ser um documentário que retratasse o regime norte-coreano sob um ponto de vista positivo. Foi com esse objetivo que o cineasta russo Vitaly Mansky recebeu uma autorização sem precedentes para gravar dentro das fronteiras do país mais fechado do mundo.

Mas o diretor aproveitou a oportunidade para pregar uma peça no governo. Mesmo com uma produção rigorosamente vigiada e ensaiada, Mansky utilizou recursos cinematográficos para driblar a publicidade oficial do regime.

O roteiro imposto pelo governo foi seguido à risca:  registrar o cotidiano de uma família norte-coreana e, em especial, a vida da pequena Zin-Mi, de oito anos. O que é revelado, porém, é a farsa da propaganda norte-coreana.

Ao longo do filme, o espectador percebe que todas as falas, gestos, sorrisos e cenários foram simulados para enaltecer o regime norte-coreano. A casa da família é fictícia, as profissões dos pais de Zin-Mi foram trocadas por outras tidas como mais nobres pelo governo, falas com elogios ao regime são repetidas exaustivamente, até mesmo pelas crianças, durante as aulas.

O cineasta deixou as câmeras rodando entre as tomadas, capturando os oficiais supervisores enquanto eles saiam dos bastidores para dirigir seu filme. Os oficiais não sabiam que algumas câmeras podem continuar filmando mesmo quando a luz vermelha não está piscando, revelou Mansky.

Outro recurso utilizado foi a utilização de dois cartões de memória, de modo que apenas um era entregue para a edição e cortes pelos supervisores. Dessa forma, um dos cartões ficou com todas as cenas gravadas intactas, sem censura.

Durante o filme, é impossível não lembrar do livro 1984, de George Orwell. O atual líder Kim Jong-Un é onipresente na sociedade. Sua imagem está em todas as partes, desde praças até lojas. Quando passam por alguma menção ao “grande líder”, as pessoas são obrigadas a se curvar.

Mansy disse que sempre se interessou pelo tema da liberdade, o que motivou a realizar o documentário. “Na Coréia do Norte, não se tem noção sobre o que é espaço pessoal, nem liberdade de tomar uma simples decisão sobre o que você quer fazer”, afirmou.

O filme completo foi exibido no Brasil pela Globonews. Há versões completas e legendadas no Youtube, mas que são excluídas a todo momento devido aos direitos autorais.

Adriano Rangel Liziero

Adriano Rangel Liziero

Editor | Geógrafo

Estudei Geografia na USP influenciado pela experiência de viver em Angola, país que despertou em mim a vontade de compreender o mundo. Meu gosto pela escrita também me levou ao jornalismo.
Trabalho no mercado editorial de didáticos, com foco em tecnologia educacional. Há sete anos, fundei o Geografia Visual para explicar o mundo utilizando o poder didático das imagens.

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