A geografia de uma pandemia

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

27 de janeiro de 2020

Quando uma doença atinge muitas pessoas em um curto período de tempo, a classificamos como epidemia. Uma epidemia pode se transformar em pandemia quando a doença se espalha para vários países e a mais de um continente. No entanto, o termo só é utilizado pela comunidade internacional após classificado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), agência subordinada à Organização das Nações Unidas (ONU).

As epidemias são monitoradas pela OMS e recebem classificações de acordo com o nível de risco em escalas regional e mundial. Uma doença de elevado nível de risco mundial pode evoluir para uma pandemia quando o surto exige reação de todos os países do mundo, como aconteceu, por exemplo, com a gripe suína, em 2009.

A classificação do risco de contaminação é importante para que os países conheçam a gravidade de um surto, saibam lidar com a doença e formulem em conjunto as contramedidas médicas necessárias, incluindo pesquisas, vigilância sanitária, detecção precoce, isolamento e manejo de casos.

A maior pandemia de que se tem notícia

Um hospital nos Estados Unidos, em 1918, lotado de vítimas da gripe espanhola.

Entre 1918 e 1919, a chamada gripe espanhola matou cerca de 50 milhões de pessoas, bem mais do que outras pandemias de gripe. Para se ter uma ideia da letalidade da gripe espanhola, a pandemia de gripe asiática matou 2 milhões de pessoas em 1957, o mesmo que a gripe de Hong Kong vitimou anos depois, em 1968. Já em 2009, a pandemia de gripe suína gerou 600 mil mortes.

Por que a gripe espanhola foi muito mais letal do que as pandemias mais recentes, sendo que no mundo globalizado da atualidade a propagação mundial de doenças é muito mais fácil? A resposta não tem nada a ver com a maior ou menor letalidade do vírus, pois as pandemias de gripe têm origens semelhantes.

Em 1918, a medicina não conhecia os vírus causadores dessas gripes pandêmicas. Tampouco existiam medicamentos e vacinas antivirais que, hoje, são decisivos no tratamento dessas doenças.

Embora os fluxos do mundo globalizado sejam mais intensos do que antes, os avanços da medicina, em conjunto com as melhorias no saneamento das cidades e a diminuição da pobreza contribuíram para a queda da mortalidade por doenças infecciosas a partir do século 20.

Como a gripe espanhola se tornou uma pandemia em um mundo menos interligado que o de atualmente?

Doze anos antes da gripe espanhola, Santos Dumont sobrevoava Paris pela primeira vez com o seu 14-Bis. Pouco tempo depois, em 1913, voava o primeiro avião comercial, com capacidade para 16 ocupantes e autonomia de 1.000 km.

De meados do século XIX até meados do século XX, o capitalismo industrial possibilitou uma segunda fase da globalização, quando os transportes e a comunicação experimentaram grandes avanços tecnológicos, especialmente com a difusão das ferrovias. Quando o mundo vivia a gripe espanhola, em 1918, a circulação de pessoas e de mercadorias em escala mundial ocorria em uma velocidade muito mais lenta que a de atualmente.

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) contribuiu com a pandemia, uma vez que populações que antes tinham pouco contato passaram a se encontrar nas trincheiras e campos de batalha. Logo, a doença se espalhou pelo mundo, infectando 500 milhões de pessoas, um terço da população mundial na época.

Se a gripe espanhola surgisse na atualidade, na quarta fase da globalização, a doença poderia se espalhar mundialmente em apenas 36 horas, de acordo com estudos da Global Preparedness Monitoring Board (GPMB), órgão do Banco Mundial e da Organização Mundial da Saúde.

Risco de pandemias é maior que nunca

A maior fluidez espacial proporcionada pela globalização explica a maior propensão do mundo a pandemias, mas não de forma exclusiva. De acordo com a GPMB, a rápida circulação global de vírus letais é favorecida por migrações forçadas, mudanças climáticas, crescente urbanização e falta de saneamento básico.

Embora, como vimos, os avanços médicos e de saneamento básico tenham reduzido muito o número de mortos por infecções, o mundo ainda convive com locais que possuem sistemas de saúde precários e escassez de saneamento básico. Os surtos mais graves de doenças como Ebola, cólera e sarampo geralmente ocorrem em regiões empobrecidas e, num mundo globalizado, podem se espalhar mundialmente em poucas horas.

De acordo com o relatório A World At Risk, do GPMB, uma pandemia pode destruir 5% da economia global, além de colapsar muitos sistemas nacionais de saúde, atingindo principalmente as comunidades mais pobres.

2020: o caso do coronavírus na China

Em meio a um surto de coronavírus, dezenas de retroescavadeiras iniciam a construção relâmpago de um hospital em Wuhan.

Este post está sendo escrito no dia em que a OMS aumentou para elevado o risco internacional de contaminação de um novo vírus que ataca o sistema respiratório e que, até o momento, infectou mais de 2 mil pessoas e atingiu outros 12 países, em 4 continentes.

Ele pertence à família dos coronavírus e, ao contrário de outros surtos mortais, é transmissível em seu período de incubação, ou seja, antes dos sintomas aparecerem.

Até o momento que escrevo o post, não se sabe a origem do vírus, mas autoridades de saúde chinesas apontam para espécies selvagens que eram vendidas para consumo humano em Wuhan, cidade mais populosa da China Central, com 10 milhões de habitantes.

Epidemias em tempo real

O site HealthMap reúne informações de surtos de doenças em diversos países. Ao clicar nos círculos, é possível visualizar a doença e informações sobre os casos mapeados.

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

Estudei Geografia influenciado pela experiência de viver em Angola, país que despertou em mim a vontade de compreender o mundo. Meu gosto pela escrita também me levou ao jornalismo.
Trabalho no mercado editorial de didáticos, com foco em tecnologia educacional. Criei o Geografia Visual para explicar o mundo utilizando o poder didático das imagens.

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