Como a análise espacial pode contribuir com a saúde pública

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

9 de março de 2020

A cólera marcou profundamente a história da humanidade a partir do século XIX. Surgida na Ásia, a doença se espalhou pelo globo com a intensificação do contato entre o Velho e o Novo Mundos por conta da crescente industrialização e da abertura de novas rotas comerciais.

As tripulações dos navios britânicos conduziram a doença desde a Índia até a Europa, contaminando outros povos ao longo do percurso. A epidemia se alastrou para outros continentes, seguindo fluxos migratórios, manobras militares e rotas comerciais.

Em 1850, a navegação a vapor e o transporte ferroviário intensificaram a circulação de pessoas e contribuíram para que a cólera se transformasse em uma pandemia, a primeira do mundo moderno.

Nessa época, Londres era uma cidade em expansão, com dois milhões e meio de habitantes, mas com sérios problemas de saneamento básico. Os alimentos que abasteciam a população vinham da área agrícola circundante à cidade, cujo solo era fertilizado com os dejetos urbanos.

Com a expansão do território urbano, transportar esses dejetos para o campo se tornou uma atividade cara. Na falta de um sistema de esgoto, fezes e outros resíduos eram armazenados nos porões das casas e lançados no Rio Tâmisa, que atravessa a cidade e abastecia a população.

Com 346 km de extensão, o Tâmisa é o maior rio inteiramente em solo inglês. Em 1858, o rio era conhecido como rio fedorento. Hoje, está despoluído.

A cólera vinha atingindo Londres desde 1830, causando diarreia e mortes. Na época, os médicos acreditavam que a doença era transmitida pelo ar fétido da cidade. Em 1853, surtos de cólera mataram mais de 10 mil londrinos.

No ano seguinte, um novo surto causou a morte de 127 pessoas em um único dia, num mesmo bairro. Esses surtos foram estudados pelo médico britânico John Snow, que defendia que a cólera não era propagada pelo ar, mas pelo consumo de água contaminada com esgoto.

Para comprovar a sua tese, John Snow colocou em um mapa as casas dos doentes (em vermelho, no mapa abaixo) e os poços de água (em azul, no mapa) do bairro que havia sofrido o surto de cólera.

Com a espacialização dos dados, o médico notou que a maioria dos doentes morava perto de uma fonte de água localizada em uma via chamada Broad Street, e sugeriu que o poço fosse interditado. Logo após a fonte de água ser fechada, a doença parou de se propagar no bairro.

O mapa do Dr. Snow é considerado um marco da análise espacial de dados. Caso o médico apenas listasse os domicílios onde residiam doentes, seria difícil perceber a relação espacial entre a propagação da doença e as fontes de água.

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

Estudei Geografia influenciado pela experiência de viver em Angola, país que despertou em mim a vontade de compreender o mundo. Meu gosto pela escrita também me levou ao jornalismo.
Trabalho no mercado editorial de didáticos, com foco em tecnologia educacional. Criei o Geografia Visual para explicar o mundo utilizando o poder didático das imagens.

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