O geógrafo Aziz Ab´Saber partiu em 2012, mas não antes de deixar profundas contribuições para a Geografia.
No livro O que é ser geógrafo (Editora Record, 2007), Aziz nos inspira e indica caminhos para a formação desse profissional cujo olhar é a constante interpretação do mundo.
Na resenha escrita por Pablo Sebastian Moreira Fernandez (UFG), você pode saborear a essência do livro e das memória do professor Aziz.

O QUE É SER GEÓGRAFO – A VIAGEM NAS MEMÓRIAS DE UM GEÓGRAFO

Resenhador

Pablo Sebastian Moreira Fernandez Doutorando em Geografia no Instituto de Estudos Socioambientais (UFG), Pesquisador do LABOTER (UFG). E-mail: pablosmfernandez@gmail.com

AB’SABER, Aziz. O que é ser geógrafo. Rio de Janeiro: Record, 2007.

Nesse livro de memórias, o professor da USP Aziz Nacib Ab’Saber nos inspira e indica caminhos na sabedoria de seus 80 anos vividos; incentiva-nos a pensar na formação de um olhar e na identidade deste “ser geógrafo”. Nestas memórias profissionais em depoimento à jornalista Cynara Menezes, situamo-nos ao seu lado e nos pomos a imaginar e a viajar por espaços da memória e do sonho deste senhor de alma jovem, por lugares da infância e de sua história familiar; de sua adolescência no vale do Paraíba envolvido pela presença da Mata Atlântica; como calouro no curso de Geografia em percursos curiosos e a pé pela cidade de São Paulo; o encontro com a literatura, com a atuação profissional, com a política, com as estruturas acadêmicas e seus territórios.
Neste pequeno e rico livro, somos conduzidos ao encontro de uma Geografia vista como ciência dinâmica, e, não como uma matéria escolar da “decoreba” de nomes de rios, montanhas, capitais e países, um tipo de saber que chega a se aproximar da arte e da poesia, da história, da ecologia, da antropologia, um saber interdisciplinar. Diante desta trajetória de vida me vejo assim: sentadinho, quieto e com o ouvido atento, ouvindo estes itinerários guardados na memória e revelados na fala: as primeiras aulas na USP ainda dos professores franceses como Pierre Monbeig e Roger Dion; os encontros e as conversas com um futuro colega de trabalho chamado Milton Santos; os Trabalhos de Campo por espaços antes imaginados como o Amazonas, o Cerrado, o Pantanal, o Sertão; os Encontros de Geógrafos e as críticas construtivas; o contato até hoje com estudantes e pesquisadores de outros lugares do Brasil e do mundo.
Desta maneira prosseguimos, pensando no sentido que esta “geografia em viagem” vai adquirindo se expressando no relato e na história de vida, como parte da formação profissional e no desenvolvimento de um olhar de pesquisador comprometido com o mundo. O livro se inicia no relembrar sua primeira viagem quando nem pensava que um dia viesse a se tornar geógrafo, no lombo de cavalo o ainda menino na companhia de seu pai e de seus irmãos, partiam da cidadezinha de São Luiz do Paraitinga localizada no alto da serra até as praias de Ubatuba no norte do litoral paulista. Depois de um dia de caminho por entre frondosas e úmidas árvores, se dava o primeiro encontro com o mar: motivo de encanto e respeito por esta paisagem. Muito forte se tornará nestas páginas sua referência a história de vida de seus antepassados. O pai libanês vindo de navio “através do Mediterrâneo e do Atlântico” e que chegado ao Brasil sem saber nada deste lugar, nem a língua, os costumes e os espaços geográficos, iniciaria uma vida de pioneiro e mascate pelos sertões de lá do Rio Paraitinga.
É a lembrança de seu pai, que no futuro será a motivação para sua ida ao Líbano, à cidade de Beirute em busca de familiares, ao Oriente Médio, ao Egito, ao Cairo: uma viagem de busca atrás de sua história como sujeito. A viagem como descoberta de mundo ganha expressão no rememorar: o cheiro da mexerica antes desconhecida; o sentido das palavras “praia de banho” e “de tombo”; a toponímia de alguns lugares; o clima, os morros e rios antes tão grandes para uma criança, e que agora para o adulto decepcionado se apresentam tão pequenos. O olhar do geógrafo está em constante construção, em amadurecimento, tal qual a formação do sujeito, é algo a ser reinventado, é a constante interpretação do mundo, é aceitar a mudança de pontos de vista, e como diz Ab’Saber recordando essas experiências: “reinterpretando coisas que não podia saber, porque não era nem alfabetizado [...]. Tento entender o que representariam esses fatos se eu tivesse consciência geográfica” (p.17).

 

Este olhar do geógrafo deve ser seletivo e um caminho para a análise geográfica, é o passo inicial para uma leitura do espaço e deve ser construído com rigor e disciplina. É quem guia nossa curiosidade e nossos desejos para uma descoberta (seja de nós mesmos, seja do objeto almejado ao encontro), sendo o Trabalho de Campo um lugar especial para seu aperfeiçoamento. Ab’saber trará carinhosamente a figura do professor Pierre Monbeig como a de uma inspiração no que diz respeito a ser um bom observador. Outro personagem tido como parte da sua formação é a do professor Roger Dion, que durante os fins de semana se tornava companheiro em viagens pela cidade, indo com o bonde elétrico até os pontos mais periféricos e andando pelos arredores a pé, procurando entender a região e a cidade daquela época.
A busca deste jovem curioso aventurando-se pela cidade em que habita será expressa num anseio: “[...] queria ver a paisagem daquelas áreas que não conhecia. Foi o começo da vida de geógrafo: ler e interpretar a paisagem, ter a noção de seqüência dos cenários de um determinado espaço, passou a ser uma constante em minha vida” (p.35). O geógrafo se colocando no espaço como em uma grande travessia, exposto às intempéries e ao imprevisto, ao inesperado e ao encontro com o que seria sua tese de doutorado: intitulada “Geomorfologia do sítio urbano de São Paulo”, defendida em 1957.
A geomorfologia ganhava sentido afetivo nestas excursões em que ele podia visualizar o relevo e o desenho da cidade, estabelecendo e realizando suas primeiras análises, fosse morando nos arredores da larga planície do rio Tietê ou remando no clube Corinthians, fosse vivenciando seus terraços e seu patamar intermediário de colinas numa época em que seus rios e seus meandros eram pouco ocupados, e as várzeas sendo ocupadas como pastagem de animais ou usada para campos de futebol: os campos de “várzea”. Além de focar o aspecto físico da paisagem se dava como necessária a aproximação com o que é humano, daí a importância em cursar disciplinas no curso de Ciências Sociais e a companhia de alunos como Florestan Fernandes, lhe implicando “um abrir os olhos” para a interdisciplinaridade: Tempo, espaço e cultura. Enxergar as diferenças socioeconomias que se ampliavam nesta cidade: as marcas herdadas do ciclo do café, as novas mansões da avenida Paulista em contraste com alguns bairros carentes, o encontro com o passado através de estudos fotográficos sobre a estrutura funcional e social da cidade. E o que é humano na geografia poderia ser avistado nos romances? Seria este um espaço da geografia onde se dá o encontro entre o que é dito físico e o que é humano? Seria um espaço para a viagem? Apreender os espaços brasileiros como grandes áreas de “tradição no linguajar e na mitologia regional”, seja em José Lins do Rego, em Graciliano Ramos, Euclides da Cunha ou Jorge Amado permitia que tivesse uma idéia sobre os seres humanos em diferentes cenários da Terra.
Prosseguimos, e nos deparamos com uma passagem rica de imagens sobre a experiência da viagem que mesmo diante das adversidades (os parcos recursos) eram realizadas. Um “tempo romântico”, ainda mais para mim: de formação no Sudeste-Sul e agora residindo no Centro-Oeste. Da Mata Atlântica rumo ao Cerrado goiano: Cada um arranjou um pouco de dinheiro, dava pra chegar, e só. Viajamos de trem até Uberlândia e lá soubemos que havia um caminhoneiro transportador de gêneros alimentícios que ia até Aragarças, na confluência dos rios Araguaia e Garças. No caminhão, fomos em cima de sacos de sal, açúcar e feijão que eram levados para serem vendidos naquela região. Cada qual pagou um pequeno porcentual, já avaliando o dinheiro que ia sobrar, e assim fomos até Aragarças, divisa de Goiás e Mato Grosso. Eu, que era de uma região de mar de morros florestados (…), na viagem ao sudeste de Goiás passei a conhecer o planalto Central com os cerrados, cerradões e florestas, e galerias campestres (p.58).
Num exercício de comparação entre o lugar conhecido com o lugar novo, a imaginação continua seu trajeto. As viagens às vezes valem mais do que os livros, dirá Aziz Ab’Saber, sejam amontoados na cabine de um avião da FAB até Manaus (a grande chance de conhecer a floresta e a planície amazônica em momentos de aperto financeiro), alojados em hospedagens baratas, num barquinho pelo rio Negro e por entre suas casas de palafita, no comer o peixe frito com farinha grossa ou nas prosas com um comerciante: “A gente aproveitava de tudo para conhecer a geografia humana e social também, além da física”, buscavase saciar uma curiosidade de geógrafo.
A viagem não só do Trabalho de campo, pois Aziz nos lembra da importância de um congresso para a formação do geógrafo, como foi para ele o Internacional de Geografia em 1956 no Rio de Janeiro, organizando os textos, os roteiros e os itinerários de campo e acompanhando outros pesquisadores. Num outro Congresso, o da AGB em Uberlândia (em meados dos anos 50) iniciaria a realização do sonho de ir à Bahia, quando conhecera um professor muito simpático que se via as voltas discutindo o possibilismo e o determinismo em geografia humana. Este era Milton Santos que o convidaria para temporadas em Salvador, lecionando em aulas esporádicas numa Faculdade onde era chefe do Departamento de Geografia.
O que apreendemos com estas memórias de Ab’Saber, é o sentido que adquire a viagem como ação para a descoberta e conhecimento do mundo, assim como seu entendimento e decodificação. As viagens fazem parte da educação, do treinamento e do amadurecimento do olhar (ver coisas, formas, paisagens) deste sujeito, pedindo o desprendimento e a mudança de postura diante do mundo. Percorrer nestas linhas as trajetórias que fizeram parte da formação deste geógrafo nos conectam à uma tradição que ainda está sendo escrita. O geógrafo que viaja sempre estará preocupado e comprometido com um modo de ser simples e de conhecer complexo, intuitivamente assume a vivência em busca da geograficidade, de novas experiências, de ampliar e compartilhar saberes geográficos. E sem buscar uma descrição cansativa ou dada a esgotar tal livro (algo que não foi a intenção destas linhas), retomo uma questão inicial lançada pela entrevistadora Cynara: “Há poesia na geografia?” Tomo liberdade e respondo: se depender de Aziz Ab’Saber, a geografia irá continuar a formar e ensinar poetas a habitarem este mundo com respeito.