A semelhança entre a lousa digital e um ventilador

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

16 de fevereiro de 2012

As novas tecnologias tem mudado a forma como nos relacionamos com o mundo e, também, uns com os outros. Os recursos digitais, em especial, estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano, até mesmo nas tarefas mais elementares, como abrir a porta de casa ou do carro, sacar dinheiro, assistir televisão, usar o telefone celular…

O investimento em novas tecnologias na educação, embora importante, não deve ocorrer antes da valorização do professor.

Na cibercultura, a lousa e o giz parecem ter virado ícones do atraso da sala de aula frente aos avanços da tecnologia digital. De repente, a chegada dos recursos digitais, como computadores, lousas digitais e tablets, passou a ser vista como prioridade em escolas privadas e públicas.

Na educação pública, é notável a mobilização de diversos governos para resolver esse suposto atraso da lousa e do giz. Nascem, aos poucos, políticas públicas para distribuir tablets para alunos e professores e instalar lousas digitais em todas as salas de aula.

A DIFERENÇA ENTRE O GIZ E A LOUSA DIGITAL É FEITA PELO PROFESSOR

É evidente que as novas tecnologias podem inovar os métodos de ensino, inserir outros tipos de recursos educacionais nas aulas, como, inclusive, mostramos aqui no Geografia Visual. Contudo, nem de longe as novas tecnologias devem ser a prioridade da agenda educacional, seja ela pública ou privada.

Um profissional da educação bem formado, remunerado de forma digna, com condições adequadas de trabalho pode trazer inovações tão ou mais significativas para as aulas do que tablets ou lousas digitais. E, percebam, não estou estimulando o quebra-quebra de lousas digitais. Eu mesmo sou um profissional da educação que trabalha com as novas tecnologias. A questão é discutir a chegada dessas novas tecnologias na sala de aula como recursos educacionais, e não como meros componentes tecnológicos.

É impossível que algo seja utilizado como recurso educacional sem a mediação de um educador. Não podemos, de modo algum, confundir potencial didático com uso didático. O giz é um mero objeto feito de calcário, mas que, nas mãos de um educador, pode fazer coisas incríveis!

O mesmo acontece com qualquer outro recurso, até com os digitais, que são capazes de oferecer uma grande variedade de conteúdos. O que eu quero dizer é que instalar lousas digitais sem valorizar a atuação do professor é tão relevante quanto universalizar os ventiladores nas salas de aula do país.

Dizer que as novas tecnologias vão melhorar os índices de educação do Brasil é o mesmo que atribuir essa responsabilidade aos ventiladores ou a qualquer outro objeto que, assim como o giz e a lousa digital, são tecnologias. É claro que a infra-estrutura é essencial, mas de forma alguma ela deve ser considerada como algo isolado de todo o contexto educacional.

As novas tecnologias têm um enorme potencial didático, podem motivar os jovens a aprender, são capazes de apresentar os conteúdos de forma inovadora e interativa. Acredito, inclusive, que esses novos recursos educacionais estão mudando a forma como ensinamos e aprendemos. No entanto, nem o melhor jogo educativo ou a lousa digital de ponta podem ser recursos educacionais se não estiverem num contexto educativo, no qual o papel do professor é fundamental.

O investimento público nas caras lousas digitais não pode ocorrer, por exemplo, no mesmo momento em que diversos estados investem menos recursos do que devem na educação, em especial na valorização do professor.

Adriano Rangel, 33, é geógrafo e mestrando em ecologia marinha. Trabalha como professor de geografia e editor de conteúdos educacionais em mídias digitais, com projetos desenvolvidos em escolas, editoras e entidades civis.

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

Estudei Geografia influenciado pela experiência de viver em Angola, país que despertou em mim a vontade de compreender o mundo. Meu gosto pela escrita também me levou ao jornalismo.
Trabalho no mercado editorial de didáticos, com foco em tecnologia educacional. Criei o Geografia Visual para explicar o mundo utilizando o poder didático das imagens.

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