Foi na África, ainda criança, que escolhi ser geógrafo

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

28 de maio de 2019

Passaram-se onze anos desde o meu retorno de Luanda quando enfim a sangrenta guerra civil angolana terminou.

O conflito, que durou 27 anos, deixou dois milhões de mortos, 1,7 milhão de refugiados e 80 mil pessoas mutiladas pelas milhões de minas terrestres espalhadas pelo país.

Vi de perto, ainda na pré-adolescência, um país marcado pela guerra tentando resistir com a força e a alegria do seu povo.

A vila do Gamek, onde morei em Angola. Que saudade…


Lembro da noite em que meu pai nos contou que viveríamos em Angola.

Não esqueço o meu primeiro dia de aula em Luanda, quando um avião de caça deu um rasante bem perto da escola.

Só eu me assustei, afinal aquela era a rotina da vila em que vivíamos.

Reportagem que o jornal da ECA USP fez sobre o período em que morei em Angola.

Com a curiosidade do olhar infanto-juvenil, quis entender o motivo da guerra, as mulheres que equilibravam baldes de água e qualquer outro volume em suas cabeças sem perder a postura.

Tentava decifrar as casas feitas de barro nos musseques, os hábitos alimentares e a diversidade de peixes proporcionada pela corrente fria de Benguela, as línguas e os costumes dos povos angolanos, os carros soviéticos nas ruas de Luanda, o toque de recolher, a estação quente chamada de cacimbo…

Luanda, lugar em que nasci verdadeiramente para o mundo. Bwamoxi twondo banga ibaku ya mbote – juntos criaremos coisas boas.

Um breve relato da minha experiência vivendo em Angola

Como em toda quinta-feira, o DC-10 da Varig ergueu-se, gigante, da cabeceira da pista do aeroporto de Luanda, num sobrevoo rente às casas brancas da vila, ganhando potência em direção a todo o oceano que há entre Angola e o Brasil.

Aquele avião era como uma garantia de que o meu país continuava a existir lá do outro lado do horizonte, e que nas férias eu poderia retornar.

Logo, o fumacê surgia na rua, soltando a sua nuvem branca para espantar os mosquitos da malária e atrair miúdos, que corriam como loucos tentando enfrentá-la, como se fosse uma espécie de monstro.

O fumacê disparava enquanto dávamos meia volta em direção às nossas casas, onde as janelas de telas já estavam fechadas para evitar os mosquitos.

Evitávamos topar com a mãe, por causa do fedor de inseticida que denunciava a travessura de respirar veneno.

Já noite, olhava o céu escuro, que às vezes tinha rastros iluminados das metralhadoras dos Faplas, os soldados do exército. Alguns já eram nossos conhecidos e nos davam balas de AK em troca de gasosas, como eles chamavam os refrigerantes.

Os dias em Luanda começavam com o canto das lavadeiras, em contraste com o som dos canhões que cruzavam o céu nos treinos de guerra durante a madrugada.

Também trocávamos pacotes de biscoito por estilingues com os miúdos angolanos. Nunca vi estilingues tão bem feitos como os dos miúdos angolanos.

Muitos DC-10, fumacês, balas de AK e estilingues depois, chegaria o fim do ano em que eu, enfim, sobrevoaria as casas brancas da vila e ganharia o oceano em direção ao horizonte que escondia o Brasil.

Nas férias em São Paulo, porém, descobria que eu havia me transformado num estrangeiro.

Não sabia o nome dos desenhos atuais, a escalação dos times de futebol, o fim da tarde não era anunciado pelo fumacê e eu não tinha a garantia do DC-10, que dessa vez me levaria de volta para o lugar que, só longe, percebia o quanto já era meu.

De volta ao Brasil

Oito anos após retornar de Angola, ainda querendo compreender tudo o que vivi naquele país, matriculei-me no curso de Geografia da USP.

O ponto de vista juvenil daquela experiência misturou-se com o olhar da ciência geográfica e deu outro significado às minhas lembranças.

Um dos meus objetivos como geógrafo é disseminar a cultura da viagem como experiência educativa. Aqui, estou no deserto de sal de Uyuni, na Bolívia.

Ao lembrar da minha trajetória de vida e da escolha da carreira de geografia, gosto de pensar no que escreveu Mabogunje, um grande geógrafo nigeriano.

Os povos, bem como os indivíduos, sempre foram e continuarão sendo os arquitetos de seu próprio destino.

Hoje, como editor de material didático e professor, procuro transmitir às pessoas, com imagens e explicações simples, a complexidade social e ambiental do mundo em que vivemos.

Essa é a forma que encontrei de fazer Geografia e de divulgar a ciência que escolhi como profissão.

 

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

Estudei Geografia influenciado pela experiência de viver em Angola, país que despertou em mim a vontade de compreender o mundo. Meu gosto pela escrita também me levou ao jornalismo.
Trabalho no mercado editorial de didáticos, com foco em tecnologia educacional. Criei o Geografia Visual para explicar o mundo utilizando o poder didático das imagens.

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