E se toda a população mundial vivesse em um único edifício gigante?

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

22 de fevereiro de 2017

A população global é hoje de 7,4 bilhões de pessoas. Quanto espaço é necessário para todos viverem juntos, de maneira relativamente confortável? O cientista Joseph Pisenti partiu da densidade demográfica de diferentes cidades para simular um prédio capaz de abrigar a humanidade inteira.

O vídeo abaixo explica todo o projeto do mega edifício, de forma visual. No entanto, como ele está em inglês, elaboramos um texto sobre o projeto, que está logo abaixo do vídeo.

A aventura de reunir ao menos um milhão de pessoas no mesmo edifício já existe no Japão. A Megacidade Pirâmide Shimizu é um projeto para a construção de uma enorme pirâmide em Tóquio.

A estrutura seria mais de quatorze vezes mais alta que a pirâmide de Gizé. A estrutura teria dois quilômetros de altura, medidos a partir do nível médio do mar, e oito quilômetros quadrados de superfície. Essa pirâmide iria ajudar a responder à crescente falta de espaço de Tóquio.

A estrutura proposta é tão grande que não poderia ser construída com os materiais disponíveis atualmente, devido ao seu peso. O projeto depende da disponibilidade futura de materiais leves super-resistentes baseados em nanotubos de carbono, que estão atualmente sendo pesquisados.

Toda a energia desse edifício seria provida com painéis solares. O transporte seria fornecido por esteiras rolantes e elevadores inclinados.

O edifício teria toda a estrutura de lazer, trabalho, habitação, de modo que ninguém necessitaria sair.

Um único prédio para toda a humanidade

Partindo da experiência da Pirâmide Shimizu, seria possível construir essa mesma estrutura em maior escala, capaz de abrigar toda a população humana?

A primeira preocupação seria onde construir esse mega edifício. O cientista Pisenti escolheria o Brasil, mais precisamente nas cercanias da usina hidrelétrica de Itaipu, pois o país possui 12% de toda a água potável do mundo, além do potencial hidrelétrico.

Como reunir todas as habitações existentes no mundo? Para isso, Pisenti fez um cálculo do tamanho médio das habitações existentes atualmente.

De acordo com a ONU, 13% da população mundial vive em um espaço igual ou menor a 5 metros quadrados. 28% possui entre 5 e 9 metros quadrados, 24% têm entre 10 e 14 metros quadrados, 18% vive em espaços entre 15 e 19 metros quadrados e apenas 18% da população mundial mora em casas maiores que 20 metros quadrados.

Uma média desse espaço daria 90.860 quilômetros quadrados de superfície, o que equivale à área da Jordânia. No entanto, se esse edifício fosse tão alto quanto o mais alto edifício do mundo, com 414 metros e 101 andares, então a base desse edifício ocuparia uma área de 900 quilômetros quadrados, um pouco menos que a dimensão das ilhas Faroés, na Dinamarca.

E o que as pessoas comeriam? Pisenti afirma que as batatas doces são o cultivo que mais oferece calorias, utilizando técnicas de cultivo eficientes. Com granjas verticais e utilizando a luz solar, um edifício cúbico de 1 quilômetro seria capaz de alimentar 27 milhões de pessoas com uma dieta diária de 1500 calorias. Seriam necessários 275 edifícios rurais conectados uns aos outros.

Para ninguém morrer de sede, cada pessoa necessita beber 2 litros de água por dia. Pisenti aforma que a represa de Itaipu seria suficiente para abastecer a população durante 4 mil anos. Obviamente parte da água seria utilizada para outras finalidades, como a agricultura. Mesmo assim, a reserva de água seria suficiente durante séculos.

Além de morar, as pessoas necessitam de espaço para trabalhar, se divertir. Pisenti utilizou a proporção de uso do solo de Nova Iorque, onde 75% do território é utilizado para zonas residenciais, enquanto que os restantes 25% são destinados para uso comercial, de transporte, industrial ou lazer.

Se mantivermos essa mesma proporção, então necessitaríamos de mais 225 quilômetros quadrados para construir o mega edifício, com uma altura equivalente à do setor residencial.

Com todo o zoneamento em conjunto, esse mega edifício que poderia abrigar toda a humanidade no mesmo espaço, com todas as necessidades básicas atendidas, necessitaria de uma área de 1339 quilômetros quadrados, ainda um pouco menos que a área das ilhas Faroés.

Essa seria a área ocupada pelo mega edifício, caso ele estivesse em Nova Iorque.

A energia gerada pela usina de Itaipu não seria suficiente para atender a demanda desse mega edifício. Pisenti afirma que painéis solares ocupando uma área do tamanho da Espanha poderiam prover toda a energia necessária.

O transporte seria parecido com a da Pirâmide Shimizu, com elevadores, passarelas e veículos dentro de túneis.

Construir esse mega edifício é realmente necessário?

Viver o tempo todo confinado, se alimentando apenas de batatas não seria uma vida tão interessante para a humanidade. Então, para que serve pensar na viabilidade desse mega edifício?

Pisenti diz que essa construção seria necessário no caso de eventos catastróficos, como uma guerra nuclear, aquecimento global ou o impacto de um meteoro, que poderiam inviabilizar a vida em ambientes externos.

A situação política dentro do edifício representaria um grande desafio para a humanidade, com tantos grupos distintos habitando um espaço confinado. Pisenti diz que provavelmente haveria um espaço mais empobrecido no interior do edifício, com menos espaço para os habitantes.

Um exercício geográfico

O mega edifício foi imaginado utilizando sobretudo os conhecimentos de engenharia. Esse, no entanto, é um exercício multidisciplinar, pois envolve questões alimentares, culturais, políticas, econômicas e ambientais.

A Geografia, enquanto ciência que investiga a produção do espaço, teria muito a contribuir com esse projeto. Só para exemplificar, poderíamos pensar nas questões abaixo:

  • Qual seria o sistema econômico vigente caso a população vivesse nessas condições, com uma limitação drástica de recursos para sobreviver?

  • Todas as pessoas teriam acesso aos mesmos recursos, de forma suficiente?

  • Haveria algum tipo de segregação espacial? Os critérios seriam apenas econômicos?

  • Quais tipos de impactos ambientais poderiam inviabilizar esse tipo de construção?

Amigos da geografia, que tal pensar em novas problemáticas? Deixe o seu comentário e inclua a geografia nesse cenário.

 

Adriano Liziero

Adriano Liziero

Editor | Geógrafo

Estudei Geografia influenciado pela experiência de viver em Angola, país que despertou em mim a vontade de compreender o mundo. Meu gosto pela escrita também me levou ao jornalismo.
Trabalho no mercado editorial de didáticos, com foco em tecnologia educacional. Criei o Geografia Visual para explicar o mundo utilizando o poder didático das imagens.

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